10 dicas de escritores para quem quer ser escritor

Todo aspirante a escritor gosta de saber os conselhos de quem já se consagrou (que costumam ser variações de: “sente a bunda e escreva”). As seguintes dicas foram tiradas do primeiro volume das entrevistas da Paris Review, editado pela Companhia das Letras.

Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges trocando macetes.

Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges trocam figurinhas.


1)
“Sempre sonhe e atire mais alto do que você sabe que pode fazer. Não se preocupe somente em ser melhor do que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que você mesmo.” William Faulkner

2) “O único recurso que conheço é o trabalho. A escrita tem leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura ou a música. Se você ja nasceu conhecendo-as, ótimo. Se não, precisa aprendê-las. E depois precisa rearranjar as regras a fim de adaptá-las a si próprio.” Truman Capote

3) “Quando estou trabalhando em um livro ou em um conto, escrevo todas as manhãs, o mais cedo possível, logo depois do raiar do sol. Ninguém vem pertubá-lo, ainda está fresco, ou frio, e você pega no trabalho, e vai se aquecendo enquanto escreve.” Ernest Hemingway

4) “Você não precisa dele [o amor nos romances]. Você deve ter modéstia quando é um romancista.” Louis-Ferdinand Céline

5) “Depois descobri que as metáforas realmente boas são sempre as mesmas. Quer dizer, você compara o tempo a uma estrada, a morte ao sono, a vida ao sonho, e são essas as grandes metáforas da literatura, porque elas correspondem a algo de essencial.” Jorge-Luis Borges (N.A.: toma essa, Lobo Antunes)

6) “Ele [o escritor] deve ser julgado pelo prazer que proporciona e pela emoção que se tem com ele.” Jorge Luis Borges.

7) “Levo muito tempo para acordar, então de manhã escrevo cartas, reviso traduções – coisas que não me exigem muito. De tarde, vou à praia e nado por 20 minutos. Volto, como, dou uma cochilada. Sem essa cochilada não há possibilidade de criação. Das 4 às 8, trabalho para valer.” Manuel Puig.

8) “Se um autor estiver convencido de que é honesto e tem algo fundamental a dizer, é muito difícil que seja um mau escritor. Sente-se obrigado a passar, a transmitir suas ideias de modo claro. Por outro lado, se um escritor nada tem a dizer, mesmo que maneje as ferramentas da escrita, será um escritor menor.” Primo Levi

9) “Um escritor que esteja numa manhã produtiva, as frases fluindo uma após a outra, experimenta uma alegria serena e íntima. Essa alegria por si só libera, então, uma riqueza de pensamentos que pode gerar novas surpresas. Os escritores anseiam por momentos como esses, por manhãs como essas.” Ian McEwan

10) “Fico trabalhando num parágrafo até me sentir razoavelmente satisfeito com ele, escrevendo-o e reescrevendo-o até encontrar a forma exata, o equilíbrio exato, a música exata – até que pareça transparente e espontâneo, e não mais algo que foi “escrito”. Pode levar um dia, metade de um dia, uma hora ou três dias.” Paul Auster

listas

 

3 livros sobre… drogas

por Fred Di Giacomo & Karin Hueck

1) Flashbacks: surfando no caos, Timothy Leary (Beca)

flashbacks-timothy-leary-capa
Sabe a música “Come Together” dos Beatles? Então, ela foi composta originalmente para a campanha de Timothy Leary a governador da Califórnia. Leary era um psicólogo, ativista e escritor muito influente nos Estados Unidos entre os anos 50 e 70, famoso por defender o uso terapêutico das drogas psicodélicas. Em seu instigante livro de memórias “Flashback”, Leary conta como conheceu as drogas psicodélicas (na época legais nos EUA e estudadas como remédio) e como elas salvaram sua vida num período de grande depressão. Leary achava que o LSD poderia expandir a mente das pessoas e ajudá-las no combate de algumas doenças mentais. Ele não defendia o uso indiscriminado da droga pela droga, mas experiências controladas que deixariam as pessoas longe de riscos. Por sua campanha foi perseguido  nos EUA, preso (por porte de uma pequena quantidade de maconha) e teve que se exilar. Seu livro revela que as conspirações contra o LSD chegaram a envolver o presidente Kennedy e a CIA. Muito interessante para entender os anos 60, descobrir como as drogas viraram ilegais e rever seus preconceitos. Outros clássicos sobre o drogas psicodélicas são “As portas da percepção”, de Aldous Huxley e “A Erva do Diabo”, de Carlos Castaneda.

2) Medo e Delírio em Las Vegas, Hunter S. Thompson (L&PM)
medo-delirio-las-vegas-capa

Enquanto Timothy Leary liderava um grupo de hippies entusiastas das drogas como meio de expansão da consciência, o jornalista Hunter S. Thompson pertencia ao time dos que queria usar o máximo de drogas ao mesmo tempo, apenas pelo barato. Nessa reportagem transformada em livro Thompson experimenta diversas drogas (mescalina, pó, álcool, pílulas…) enquanto vai cobrir uma conferência da polícia anti-narcóticos. É a marca do final do sonho hippie e o começo dos anos 70 junkies(o livro foi publicado como reportagem pela Rolling Stone, em 1971) marcados pela heroína e cocaína, quando as drogas mais leves (maconha e ácido) foram proibidas pelo governo e passaram a serem vendias por traficantes inescrupulosos interessados em viciar seus clientes o mais rápido possível. Como diriam John Lennon “the dream is over”.

3) O fim da Guerra, Denis Russo (Leya)

o-fim-da-guerra

“A guerra contra as drogas fracassou.” Quem disse isso não foram universitários exaltados, mas os ex-presidentes do México, Brasil e Colômbia, um ex-secretário-geral da ONU e um ex-presidente do Banco Central americano – todos membros da Comissão Global de Política de Drogas. É com isso em mente que o jornalista Denis Russo Burgierman viajou por 5 países para observar o que as sociedades têm feito para conviver principalmente com uma droga: a maconha. Na Holanda, visitou as salas de tratamento nas quais usuários podem usar drogas sob o cuidado do governo, mas que estavam vazias. Simplesmente não havia mais dependentes para tratar. Em Portugal, Denis conheceu o país que tirou as drogas do sistema judiciário e as trata como questão de saúde. Por lá, se você for apanhado usando, vai ser encaminhado para conversar com psicólogos, médicos ou assistentes sociais – nada de policiais. Em comum, todas têm uma coisa: desistiram de fazer guerra e tentam traçar novos caminhos.

tres livros sobre

 

As comparações de Lobo Antunes

Li recentemente “Os cus de Judas” (Alfaguara), de Lobo Antunes e, olha, taí um português que gosta de fazer comparções. Várias são bem originais. Grifei algumas e fiz uma listinha com as favoritas.

cus-de-judas

  1. “…e a pequena vesga do strip-tease a despir-se no palco no mesmo alheamento cansado com que uma cobra velha muda de pele.” (pág. 27)
  2. “…todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranquilos como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odeón.” (pág. 31)
  3. “…mulher aparentada a um imenso glúteo rolante em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorroida,…” (pág. 39)
  4. “Gosto dos seus gestos, assim automáticos e lentos como os das figuras dos relógios prosseguindo o seu trajectozinho obstinado,…” (pág. 41)
  5. “As órbitas do tocadores aparentavam-se a ovos cozidos fosforecentes, sem pupila,…” (pág. 46)
  6. “…retratos guardados no fundo das malas sob a cama, vestígios pré-históricos a partir dos quais poderíamos conceber, como os biólogos examinando uma falange, o esqueleto monstruoso da nossa amargura” (pág. 50)
  7. “…as mulheres com quem me não deitaria ofereceriam a outros as coxas afastadas de rãs de aulas de ciências naturais.” (pág. 51)
  8. “…com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, à maneira dos vincos concêntricos de areia dos jardins japoneses;…” (pág. 79)
  9. “Lisboa, mesmo a esta hora, é uma cidade tão desprovida de mistério como uma praia de nudistas,…”, (pág. 105)
  10. “…em quartos de hotel impessoais como expressões de psicanalistas,…” (pág. 108)
  11. “… a nossa presença apagava-se dos compartimentos que habitáramos, do mesmo modo que nos apressamos a lavar os dedos depois de apertar uma mão desagradável ou oleosa.” (pág. 118)
  12. “…principiei a amar essas tintas horríveis das paredes e essa ausência de móveis do mesmo modo que se gosta de um filho corcunda ou de uma mulher com mau hálito…”, (pág. 121)
  13. “…somos como dois judocas que se teme o suficiente para na se ferirem, e inventam, quando muito, falsos golpes inofensivos que se detêm a meio do trajecto,…” (pág. 139)
  14. “…penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus.” (pág. 164)
  15. “…o seu rosto, de olhos fechado e de boca aberta, assemelhou-se por instantes ao das velhas que comungavam nas igrejas da minha infância, velhas de dentadura solta, arfando, de língua de fora, pelo círculo branco da hóstia.” (pág. 180)

O livro, é claro, trata da experiência de Lobo Antunes como médico de guerra em Angola, entre em 1971 e 1973, nas lutas de independência. Os relatos das feridas de batalhas são de partir o coração. A guerra civil que seguiu a libertação durou até 2002.

guerra-civil-angola

Resquícios da guerra civil angolana, em 2003. Foto de Denis Doyle.

 

 

 

frases para pendurar na parede

 

 

3 livros sobre… escrever

1) Oficina de Escritores – Um Manual para a Arte da Ficção, Stephen Koch (Martins Fontes)
oficina-escritores-stephen-koch
Eu não acreditava em “livros que ensinam a escrever” ou “oficina de escritores” até ser apresentado a esse excelente manual de Stephen Koch. O livro de Koch é extremamente prático e útil, foge da autoajuda e realmente auxilia o autor iniciante a melhorar seu texto, construir uma rotina e ter disciplina. Koch é sábio em afirmar que todo bom autor pode encontrar os caminhos da escrita sozinho, mas que isso é muito mais trabalhoso do que seguir o mapa cheio de atalhos dados por quem mais entende do assunto: escritores consagrados. A base de seu livro são dicas e reflexões de gigantes da literatura – muitas delas extraídas de entrevistas dadas para a revista Paris Review. Se interessou? Confira o próximo livro dessa lista!

2) As entrevistas da Paris Review Vol. 1, vários (Companhia das Letras)
entrevistas-paris-review-capa

Se você lê em inglês, então pode se deliciar com dezenas de entrevistas feitas pela fantástica revista literária “Paris Review” com os maiores nomes da literatura do século XX. Neste volume, a Companhia das Letras reúne algumas das melhores aulas práticas sobre escrever (e viver) dadas por grandes escritores como Hemingway, Céline, Borges e Faulkner.

3) Conversas com Woody Allen, Eric Lax (Cosac Naify)
conversas-woody-allen

O livro “Conversas com Woody Allen” é um grande workshop sobre escrever, processo criativo e cinema. Divididas em 7 temas, suas entrevistas com o famoso cineasta, roteirista, ator e escritor vão dos anos 70 até os 2000 e revelam todo processo de Woody para criar seus roteiros e livros. Um dos 7 temas é justamente “Escrever” e funciona bem pra quem está focado em melhorar seu método. Uma curiosidade sobre Woody: ele anota suas ideias em papéis e guarda tudo num saco. Quando vai fazer um roteiro ou livro, seleciona um dos papéis e começa a desenvolver a ideia.

tres livros sobre

As melhores capas de livro – da nossa estante (Parte 2)

Sei que estão todos muito ansiosos pela continuação do post de ontem, então, para a alegria geral, eis as últimas capas.

Ilustrações

van-gogh
Bem, se você pode usar Van Gogh como ilustrador da sua edição, não tem como dar muito errado.

maquina-fazer-espanhois
Um livro lindo por dentro e por fora. Quem achar os urubus ganha uma bala.

receberia-piores-noticias-lindos-labios
Aqui fica difícil escolher o que é mais bonito, se é a capa ou o título. (Fico com o título, vai)

pinoquio
Capinha extra charmosa, título em OURO, ilustrações imitando o estilo da época. Alegoria e adereço: nota dez.

proust-neurocientista
Tipografia descolada, ilustra esperta.

irmãos-grimm
Já mostrei como o livro é belo aqui, mas não custa repetir. Cada volume é de uma cor, fonte e papel inclusive. E ainda tem essas ilustrinhas de cordel. Um amor.

irresistible-fairy-tale
Seguindo a linha contos de fada, uma capa que poderia ter sido desenhada por uma criança (talentosa, ok). Gosto que as coisas são meio feias aqui.

20-mil-leguas-submarinas
De capa dura…

20-mil-leguas-submarinas2
…e todo ilustrado por dentro. Julio Verne ficaria orgulhoso.

Livros que comprei pela capa

Adoro fazer essas coisas. Eis os favoritos:

schmetterlingssammler

de-repente-profundezas-bosque
O meu critério de beleza: coisas coloridas.

E é isso!

listas

 

 

 

As melhores capas de livro – da nossa estante (Parte 1)

Inspirada no último post sobre as melhores capas de livro de 2012, resolvi escolher as mais belas também – só que da nossa estante. Essa lista bem que poderia se chamar prêmio Cosac Naify de belezura de edição, mas tentei ser ECLÉTICA. Escolhi várias editoras, vários estilos, vários tipos de beleza. Lá vão

Patterns

virginia-woolf

Ok, comecei com um da Cosac. E ok, comecei com patterns (adoro patterns, vide o fundo desse blog). Mas todos dessa coleção de mulheres escritoras são lindos. Aqui em casa temos esse e os dois da Gertrude Stein.

dom-quixote
Essa coleção que a Abril copiou da Penguin é de chorar. Amo tanto que virou decoração no nosso casamento. Ó que lindeza:

casamento-karin-fred
Momento arquivo confidencial.

Tipográficos

fera-na-selva
Por fora, uma capa sem gracinha…

fera-na-selva2
Por dentro, um projeto gráfico de ler ajoelhado: as páginas vão ficando escuras à medida que a história fica tensa. Começa preto no branco, termina branco no preto.

handy
Gosto do ipsilone em cima de tudo, da linha fina torta. Acho esperta.

senhor-eliot-conferencias
Uma ilustração, você diz? Olha só do que é feita a cara do sr. Eliot.

everything-is-illuminated
O livro está em inglês, mas a versão em português manteve a tipografia, bem bela.

suplicio-papai-noel
Esses pontinho vermelhos na verdade são acentos, vírgulas, parênteses, exclamações. Todas do livro estão assim aliás.

suplicio-papai-noel2
Gracinha, né? Cosac manda beijo.

Fotográficos

lolita
Um dos meus livros favoritos, numa edição pueril e sensual. <3

amor-sem-fim
É um pássaro? Um avião? Um balão? Uma foto? Uma ilustração? Tanto faz, é bonito e chamei de foto.

ligeiramente-fora-foco
Que coincidência. A foto do livro também ficou ligeiramente fora de foco.

Por hoje, é só. Infelizmente, acabei com a banda do planeta fazendo um post tão grande. Amanhã continuo com as mais belas capas ilustradas.

listas

3 livros sobre… mulheres que traem

por Fred Di Giacomo e Karin Hueck


1) Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Marçal Aquino (Companhia das Letras)

capa-eu-receberia-piores-noticias-lindos-labios

Lavínia é um espetáculo: morena fogosa, ex-garota de programa ninfomaníaca. Ela é casada com Ernani, um pastor evangélico 38 anos mais velho, que literalmente a tirou daquela vida. Quando o fotógrafo Cauby vai para a pequena cidade no interior do Pará onde o casal mora, não é difícil saber o que vai acontecer. Cauby e Lavínia têm um caso caliente, escandalizando a cidadezinha – que, aliás, vive uma nova corrida do ouro amazônica. É mistura explosiva. Livro sensual e lindo, que virou filme que consegue ser igualmente sensual e lindo.

2) Madame Bovary, Gustave Flaubert (Companhia das Letras)
madame-bovary

Uma pequena burguesa entediada casa com o marido apaixonado e sem sal. Consumida pelo tédio e estimulada pelos romances sentimentais, ela procura a felicidade nos casos amorosos que a levarão à ruína. Emma Bovary, personagem principal do grande romance de Flaubert, inventou o estereótipo da “mulher que trai”. Curiosamente Flaubert dizia que a romântica Bovary era ele mesmo. (Emma Bovary c’est moi“) O romance provocou polêmica quando lançado e quase levou seu autor para cadeia. É interessante perceber que o romantismo erótico que move Emma é parecido com o de Anastasia Steele do best-seller “50 tons de cinza”,mas no século XXI, a mulher em busca de satisfação sexual não precisa se envolver em casos extraconjugais nem morrer (ainda bem) no final do livro.

3)Primo Basílio, Eça de Queirós (várias editoras)

primo-basilio-mulheres-traem-capa
Uma pequena burguesa entediada casa com o marido apaixonado e sem sal. Consumida pelo tédio e estimulada pelos romances sentimentais, ela procura a felicidade nos casos amorosos que a levarão à ruína.

Não, eu não me confundi, a premissa do clássico de Queirós – que você deve ter lido no colegial – é a mesma de “Madame Bovary”. Claramente influenciado por Flaubert, o escritor português expande a história de Emma Bovary em Luísa, a pequena burguesa apaixonado pelo primo  que dá título ao livro. Aprofundando as questões propostas por Flaubert pouco menos de 2o anos antes e hábil nas passagens suavemente eróticas, Queirós era preferido por grandes escritores como Zola e Borges. Na dúvida, leia os dois livros.

tres livros sobre