“Os últimos dias de paupéria” (Do Lado de Dentro), Torquato Neto – Resenha de livro

esse post eu publiquei originalmente no blog Punk Brega.

“Existirmos, a que será que se destina?”

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É legal que a gente encontre fácil no Brasil a edição da Conrad de “Reações Psicóticas” de Lester Bangs, famoso crítico musical americano. Seria legal termos essa facilidade com a obra de Torquato Neto (1944-1972), um dos nossos Lester Bangs.

Torquato Neto era um blogueiro dos anos 70. Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Do teatro ele não gostava muito, mas anunciava as novidades, assim como uma ou outra notinha sobre artes plásticas. É legal acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Pra quem lê hoje soa como ironia. Eram os anos de “Fa-Tal” da Gal (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), “Transa” o (disco em inglês) cult do Caetano, “Construção” do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”. Lá fora, John Lennon estava de música nova: Imagine. E Torquato avisava a galera pra se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem; o Pink Floyd. (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso “The Dark Side of the Moon”). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto. (influência que daria origem ao clássico “Acabou Chorare”).

Páginas do livro "Últimos dias de Paupéria" do Torquato Neto

Páginas do livro “Últimos dias de Paupéria” do Torquato Neto

No cinema, Torquato era do time dos “undigrudis”: Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla e, claro, Zé do Caixão. Descia a lenha no cinema novo, de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que passara a ser patrocinado com grana estatal. Só poupava Glauber das críticas. E se empolgava com a tecnologia das câmeras Super 8. 40 anos antes de Youtube e das filmadoras digitais ele previa: todo mundo vai ser cineasta.

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“Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro ( que devia chamar-se “Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu aniversário de 28 anos. Morreu sem publicar nenhum livrinho em vida. Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação” com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta tropicalista, amigos dos concretistas e admirador da poesia marginal de Chacal, então estreante. Também dirigiu e atuou em alguns filmes Super 8. Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida, deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da esquerda. Nasceu no tempo errado. Inspirou Caetano numa de suas melhores letras; “Cajuína”, do álbum “Cinema Transcendental” (1979). Aquela que começa existencialista assim:

“Existirmos, a que será que se destina?”.

 

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Capas de livro mais sexy da história

O site FlavorWire fez uma seleção das capas de livro mais sensuais da história. Na lista dos autores algumas presenças óbvias como Henry Miller e D.H. Lawrence em meio alguns pulps baratos e vintage. Confira algumas dessas capas abaixo:
1)

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Design de Allison Saltzman

2)

bond

Design animal  de Michael Gillette para a série de livros de James Bon reeditada pela Penguin

 

3)

sonsand-dh-lawrence

 

4)

 realmanadventures

5)

tropico-de-cancer

 

6)
venusoflesbos

7)

lolita-capa-sexy

 

Capa de John Gall rejeitada por ser muito escandalosa

8)

youngwhosin-capa-sexy
9)

mercy

Capa de Mario Pulice
10)

earthman

 

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3 resenhas sobre… os irmãos Karamázov

A obra-prima de Dostoiévksi merece uma resenha de uma centena de laudas. Enquanto não me empolgo, vai aqui um pequeno resumo, editado pelos protagonistas da história:

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1) Dimitri Karamázov, ou Mítia ou Mítienka

Eis o primogênito da família. Dimitri é aquele tipo de pessoa que você gostaria de chamar para o bar, mas não para a sua casa: escandaloso, apaixonado, impulsivo, atrapalhado, protagonista das melhores histórias. Ele é noivo de Catierina Ivánovna, mas ama Grúchenka, uma moça que dá  para qualquer um desperta as paixões de qualquer desavisado, e que, por acaso, é também o grande amor de Fiódor Karamázov, o pai da família. Dimitri e Fiódor então disputam o amor da singela dama em brigas escandalosas e ameaças de morte. Basta dizer que o mais velho não sairá com vida.

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Os rascunhos de Dostoiévski para o livro: tranquilo.


2) Ivan Karamázov, ou Vânia ou Vanka

Típico filho do meio, você demora a entender a que Ivan veio. Racional e ateu, ele ri dos de fé fervorsa (uma discussão, aliás, que é um dos temas centrais do livro). Ele ama Catierina Ivánovna, a moça nobre que seu irmão mais velho rejeitou, e que, embora dê todos os indícios de também gostar dele, fica num lenga-lenga para se decidir a quem amar. Desde o começo, Ivan tem uma relação hostil com o criado da família, Smierdákov, um rapaz perverso e epilético, que seria o filho bastardo – e de olho na herança – de Fiódor. Ivan protagoniza uma das minhas cenas favoritas do livro: um encontro com o diabo, em meio a uma alucinação doente.

O autor, pensativo

O autor, pensativo


3) Alieksiêi Karamázov, ou Aliócha ou Alióchchenka

Não dá para entender como esse rapaz bonzinho, modesto e carola saiu dessa família. No começo do livro, Aliócha vive no convento, praticando sua fé intensa, até o momento em que seu guru espiritual, o Stárietz Zossima, o manda sair de lá e viver a vida. O que o caçula faz é basicamente acalmar os ânimos da família disfuncional. Alieksiei passa boa parte do livro indo na casa de um e depois de outra e depois de mais outro para botar panos quentes, dizer palavras de conforto, e resolver as encrencas em que os outros se meteram. Quando Dimitri é acusado de matar o próprio pai, Aliócha se empenha em provar sua inocência. E eis aí o enredo central do livro: a morte de Fiódor; a acusação, a investigação e o julgamento de Dimitri; e o desfecho surpreendente. Impossível não se envolver com os três, pessoas tão críveis que você consegue se imaginar trombando com elas por aí nas ruas.

Os irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski, editora 34, tradução: Ulysses Bôscolo
<3 <3 <3 <3 <3

 

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Novas capas para Kafka

Peter Mendelsund é o diretor de arte da Pantheon Books, editora nova-iorquina que primeiro lançou Maus, entre otras cositas más. Mas o que importa aqui é que ele pegou as obras de Kafka e as redesenhou nessas belezuras. Mendelsund usou muitos olhos porque, de acordo com ele, representam intimidade e paranoia ao mesmo tempo. E essa fonte dos títulos, chamada “Mister K”, é inspirada na letra cursiva do próprio Kafka.

Dá uma olhada.

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Pessoas famosas lendo livros

O tumblr é antigo, mas as fotos são boas demais. O Awesome People Reading é uma coleção de famosos lendo – nem sempre livros, mas ok. Eis algumas para você ter um gostinho:

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Bettie Page
Albert Camus smoking on a balcony
A
lbert Camus

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S
alvador Dalí

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Emile Zola
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William Faulkner
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Madonna
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Marcel Duchamp
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Marilyn. Pelo jeito ela curtiu o Ulysses.
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Anton Tchékhov

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Gabriel García Márquez

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Alfred Hitchcock

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3 livros sobre… loucos

Por Karin Hueck e Fred Di Giacomo

1) “Jerusalém”, Gonçalo Tavares (Companhia das Letras)

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Uma esquizofrênica que é internada à força pelo marido num hospício, onde acaba tendo um filho. De outro. Um veterano de guerra, melhor amigo de uma prostituta, que vive amedrontado e que  sente poder matar alguém a qualquer instante. Um médico renomado, filho do político mais importante do condado, viciado em colecionar dados sobre genocídios e extermínios. Um suicida manco, que busca seu filho desaparecido. No centro deste livro está um hospício, mas as histórias de todos esse personagens se cruzam à medida que o relato avança – ao mesmo tempo que fica cada vez mais difícil definir quem é o louco e quem é o sano por lá.

2) “O Alienista”, Machado de Assis (L&PM)

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Clássico dos clássicos, este livro (conto?) narra a história de Simão Bacamarte, um psiquiatra renomado que chega à cidade de Itaguaí determinado a exterminar a loucura do vilarejo. Começa internando os clinicamente malucos, mas logo prende os bajuladores, os esbanjadores, os sovinas, os vaidosos, os primeiros que lhe cruzam o caminho. Ao ponto de não sobrar ninguém nas ruas de Itaguaí (e os spoilers acabam por aqui). A história é uma crítica, de novo, aos limites tênues entre sanidade e loucura, e ao celebrado “método científico”: que ciência é essa que dá poder a um lunático como Bacamarte?

3) “Medo de Sade”, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)

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Desculpem o clichê, mas em “Medo de Sade” nada é o que parece. E isso é bom!  O romance, dividido em dois atos e com cara de peça de teatro, começa na França do Marques de Sade (começa mesmo?) onde um tal Barão de LaChafoi  parece estar preso num hospício após uma orgia que acabou em assassinato. No segundo ato, um casal de discípulos do Barão cria, nos dias de hoje, um jogo onde tem que pregar peças um no outro. Quem se render ao medo perde. Equilibrado entre o erotismo, o horror e a loucura, “Medo de Sade” é um livro objetivo e eficiente.

tres livros sobre