“Dias de Luta”, do jornalista Ricardo Alexandre, conta a história do rock brasileiro dos anos 80

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Fácil e redondo de digerir, mas recheado de informação de qualidade. Tal qual uma canção pop composta pelos ícones dos anos 80 ( como Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana), o livro “Dias de Luta”, do jornalista Ricardo Alexandre, conta a história do rock nacional de forma divertida e leve, prendendo a atenção do leitor com os principais fatos das trajetórias das bandas aliados à curiosidades pouco conhecidas e engraçadíssimas.

A história começa com a banda de rock progressivo “Vímana” formada, entre outros, pelos futuros astros Lulu Santos, Lobão e Richie. A transição do hipismo setentista para a new wave dos anos 80 vai rolando aos poucos até estourar nacionalmente com a Blitz (“Você não soube me amar”) e a Gang 90 (“Perdidos na Selva”). Através das páginas de “Dias de Luta”, o leitor é levado a conhecer as danceterias dos anos 80, as apresentações de playback no Chacrinha e a beatlemania em torno do RPM regada por belas mulheres e muita cocaína.

“Dias de Luta” também tem seu Lado B dedicado às bandas menos conhecidas da cena (os punks, a vanguarda paulistana e a “no wave”) e aos momentos trágicos da década como a morte de Júlio Barroso (da Gang 90), a prisão de Tony Belotto e Arnald Antunes por porte de heroína (e as de Lobão, anos depois, por envolvimento com drogas) e a cobertura cruel da mídia sobre a agonia de Cazuza, vítima da Aids.

No final, Ricardo Alexandre seleciona as 50 melhores músicas da década, que servem de trilha sonora perfeita para essa leitura ensolarada e barulhenta.

Ouça “Perdidos na Selva” da Gang 90

Resenhas de clássicos: “O uivo” de Allen Ginsberg

Este texto foi originalmente publicado por mim mesmo no site Punk Brega.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”.

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Willian Borroughs é adorado no rock n’ roll, tomou picos com os punks e gravou uma música com o U2, mas a literatura beatnik se abriu pra mim com “O Uivo e outros poemas”, obra que conquistou milhões de leitores e tornou seu autor mundialmente famoso. Ginsberg pode ter conhecido a aprovação e a popularidade de um autor consagrado, mas nunca deixou de lado seu estilo “pervertido”, seus versos longos, sua acidez que o enquadram na poesia marginal. Homossexual, usuário de drogas, filho de uma comunista com que teve uma relação delicada, o autor escreveu sua obra num período pré-libertação hippie, segunda metade da década de cinqüenta, quando ainda se sentiam os ecos do Macarthismo e toda paranóia da Guerra Fria. Perseguido e processado pela direita puritana americana e sem o apoio dos ortodoxos da esquerda, Ginsberg escrevia tudo em ritmo de fluxo psicológico, versos grandes que eram na verdade um apanhado de versos menores,como se cada uma de suas poesias fosse um conjunto de pequenos poemas representados por cada parágrafo. De um lado há a escrita coloquial, com uso de linguagem crua, referências a órgãos sexuais, sodomia, drogas e muito jazz, do outro as diversas citações de autores e trechos da liturgia hebraica que demonstram a erudição do poeta,ou como Cláudio Willer escreve em sua apresentação, que os beats se tornaram escritores por serem antes de tudo leitores.

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“O Uivo” é um grito de derrota, de revolta, um relato autobiográfico de quem passou por internações em hospitais, de quem viu o horror com os olhos. Autobiográficos são todos os poemas do autor como “Kaddish para Naomi Ginsberg”, escrito para sua própria mãe, um longo poema marcado pela dor, onde ele relata sua conturbada relação edipiana, desde os tempos da militância no Partido Comunista, depois enlouquecida e paranóica, entrando e saindo de instituições psiquiátricas(destino repetido pelo filho), até sua morte. Tudo escrito sem pudor, com a caneta espirrando sangue, a ironia impregnando o papel, pintando o irmão, Eugene, como um advogado fracassado, a figura paterna distante, a mãe hora motivo de repúdio, ora de desejo.
Ginsberg foi um autor que aprendeu a escrever, não só com a literatura, mas também com a vida. Escreveu “O Uivo” depois de sair de Nova York, ter conhecido o mundo trabalhando em um navio e ter chegado à Califórnia onde conheceu Ferlinghetti e Gary Snider, entre outros. Foi internado em instituições psiquiátricas, andou com traficantes e junkies pelas ruas dos Estados Unidos. Seus versos têm o lirismo das calçadas sujas, dos becos, as rimas alteradas pelas drogas, os (anti) heróis são seus amigos beats, seu companheiro no hospício Carl Solomon e Neal Cassady, o “NC”, amante de Ginsberg e Kerouac (com quem viveu um triângulo amoroso, envolvendo a mulher do escritor) e morto de overdose.

A poesia anárquica de Ginsberg é revolucionária, sem ser partidária, retrata a morte sem lamentações, como uma superação. O poeta passa por toda realidade como um sobrevivente. A vida é curta e ele a viveu da forma mais intensa, o que importa é o instante, já que como Ginsberg diz “o universo morre conosco”.

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20 livros para ler com 20 (e poucos) anos

Os 20 anos são uma época de transição entre a adolescência e a vida de adulto. Um período em que os jovens começam a explorar o mercado de trabalho (ou estão se preparando para tal ), têm seu próprio dinheiro, experimentam relacionamentos mais sérios e estão liberados para beber, votar e… serem presos  :-P.

A ideia aqui é listar livros que flutuem entre os relatos de começo da vida adulta e fim da adolescência (como “Persépolis”, “Feliz Ano Velho” e “Encontro Marcado” a) e, também, livros que sirvam de introdução à conceitos e ideias mais complexas que já podem ser apreciados com gosto por quem foi obrigado à ler os clássicos da literatura no colegial. Esta é uma boa hora pra se iniciar na literatura de Thomas Mann e Vladimir Nabokov, por exemplo, e para expandir suas ideias com os conceitos básicos do pensamento do antropólogo Joseph Campbell.

No mínimo, os livros sugeridos aqui vão deixar essa época da sua vida menos angustiante e mais divertida.

1) “Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva

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Maior best-seller nacional dos anos 80, “Feliz Ano Velho”  é um clássico sobre a juventude com direito a sexo, drogas, começo do rock brasileiro e a típica crise do “e agora que virei adulto o que eu faço da minha vida?” O livro também é famoso por narrar o acidente que deixou seu autor tetraplégico.

2) “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, Robert M. Piersig
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Best-seller da filosofia pop, “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” narra as viagens de moto do autor e seu filho através dos Estados Unidos –  embalado por conceitos básicos do pensamento de gente como Aristóteles e Kant, misturados ao Tao oriental. Para abrir sua cabeça de maneira divertida e instigante.

3) “A  Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

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Qual a diferença entre sexo e amor? Escrito numa linguagem simples, mas carregado de conceitos filosóficos, A insustentável leveza do ser” funde erotismo, idealismo e um profundo mergulho no relacionamento entre homens e mulheres. Tudo ambientado na efervescente Checoslováquia  de 1968.

4) “Morangos Mofados”, Caio Fernando Abreu

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Outro símbolo dos anos 80, “Morangos Mofados” é um livro de contos do genial Caio Fernando Abreu que vai da astrologia à música, passando pela descoberta do sexo homossexual e serve de transição do hipismo dos anos 70 para os anos 80 com seus publicitários yupies, o medo da Aids e a redemocratização do Brasil.

5) Delta de Vênus, Anaïs Nin
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Uma coletânea de aventuras eróticas criadas por Anïs Nin,
Delta de Vênus” pode ser sua ponte do sucesso “50 tons de cinza” para a “grande literatura” do século XX. Leitura picante e rápida, ideal para a (o)s jovens adulta(o)s descobrindo que são dona(o)s de suas vidas (e seus prazeres.)

6) “O Sol também se levanta”, Ernest Hemingway
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Ernest Hemingway sempre figura nas listas de maiores escritores da história. “O sol também se levanta”, seu primeiro sucesso, pinta o cotidiano de jovens americanos morando em Paris depois da Primeira Guerra Mundial. Aqui Hemingway usa sua prosa direta e revolucionária para retratar o cinismo e futilidade da “geração perdida”.

7) “On the Road”, Jack Kerouac
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On the Road/Na Estrada” pode ser apreciado tanto por adolescentes rebeldes de 15 anos, quanto por jovens adultos de 20. Uma leitura juvenil inspirará sua vontade de colocar o pé na estrada e se livrar da autoridade dos pais e da escola. Numa segunda leitura, os buracos dessa “rebeldia sem causa” ficam evidentes dá lugar para o existencialismo que nos faz questionar para onde estamos indo e por que estamos indo tão rápido .

-Comprar “On The Road”

8)Persépolis“, Marjane Satrapi
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Cheio de humor, este clássico contemporâneo dos quadrinhos conta a história do Irã através da infância, adolescência e juventude de uma garota alternativa e inteligente. Ao mesmo tempo que você irá se identificar com as angústias universais do crescimento, uma aula de história vai correr – leve – diante de seus olhos.

9) “Alta Fidelidade”, Nick Hornby
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Um dono de loja de discos resolve ir atrás de 5 ex-namoradas para entender o que deu errado em seus relacionamentos.  Grande marco da literatura pop, o livro de Nick Hornby mistura o clima de comédia romântica com quilos e quilos de referências musicais.

10) “Até o dia em que o cão morreu”, Daniel Galera
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Primeiro romance do escritor Daniel Galera, “Até o dia em que o cão morreu” narra – de forma  minimalista – a vida de um jovem adulto de 25 anos que não consegue escapar de sua adolescência tardia (se identificou?). Dependendo dos pais para se bancar, mas morando sozinho, ele terá sua vida sacudida por uma modelo chamada Marcela e pelo cachorro que decide adotar.

11)“O Poder do mito”, Joseph Campbell
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“O Poder do Mito” é uma longa entrevista que explica as teorias do antropólogo Joseph Campbell, uma introdução básica a conceitos complexos que vão fazer você repensar sua vida. Campbell é o autor que influenciou o diretor George Lucas a criar “Star Wars”, que popularizou o “mito do herói” e que identificou semelhanças nas lendas de quase todos os povos que habitaram a Terra

12) “Morte em Veneza“, Thomas Mann
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Autor de obras gigantescas como “A Montanha Mágica”, o consagrado escritor Thomas Mann usa sua prosa profunda e complexa para contar, na novela “Morte em Veneza“, a atração obsessiva de um homem de meia-idade pelo belo jovem Tadzio. Em meio a tensão da paixão platônica, o leitor reflete sobre a busca humana – frustrada – da perfeição e beleza nas artes.

13)  “Encontro Marcado”, Fernando Sabino

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Publicado em 1965 “O encontro marcado” é considerado o retrato perfeito da geração de seu autor, mas sua temática universal serve de inspiração para jovens de qualquer época. A descoberta da literatura, do sexo, do amor e os primeiros passos no mercado de trabalho são narrados de forma bem-humorada, leve e instigante.

14) “A Casa de Bonecas“, Henrik Johan Ibsen
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Uma peça teatral sobre a liberação feminina (escrita no século XIX) para todas as meninas que viram jovens mulheres procurando encontrar voz e espaço num mundo – ainda – dominado por homens. 

15) Misto-Quente”, Charles Bukowski

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Que adolescente nunca se sentiu feio e miserável com suas espinhas e a falta de amor? Bukowski cria nesse romance autobiográfico um retrato definitivo dos jovens perdedores. Seu personagem principal é feio,é pobre e passa os 21 anos narrados na história sem ter nenhum contato sexual ou romântico com uma mulher sequer.

16) “A Paixão Segundo G.H.”, Clarice Lispector
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Todo existencialismo de seus vinte e poucos anos encontrará um paralelo à altura no denso existencialismo de Clarice em curtas 180 páginas.

17) “Madame Bovary“, Gustave Flaubert
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O tédio da vida de casada leva uma jovem burguesa sonhadora à infidelidade conjugal. Com essa premissa que se mostraria universal, Flaubert define o romance moderno e destaca uma característica da nossa sociedade idealista que não consegue se contentar à mediocridade do dia-a-dia e busca no prazer imediato o tempero para uma existência vazia.

18) “Não devemos nada a você”, Daniel Sinker

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Você acha que sua juventude foi selvagem? Então leia os relatos de grandes nomes do punk rock mundial e inspire-se em suas histórias de “faça você mesmo”. “Não devemos nada a você” é um grande ode à esperança de que os jovens podem mudar o mundo e criar suas histórias de forma original e divertida.

19) “A Visita Cruel do Tempo“, Jennifer Egan
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Vencedor do prêmio Pulitzer de  ficção, “A Visita Cruel do Tempo” é um retrato cru do mundo das celebridades, cheio de citações de bandas punk rock e influenciado pela série Sopranos e o escritor Marcel Proust. Literatura contemporânea rock n’ roll.

20) “Lolita“, Vladimir Nabokov

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Um dos livros mais consagrados da literatura mundial, “Lolita” narra – através de uma prosa perfeita e cheia de ironia e sarcasmo –  a paixão de um homem de meia-idade por uma menina de 12 anos. É uma introdução ao mundo dos clássicos da literatura e as contradições da vida real, muito longe da visão maniqueísta e heroica que costumamos ter na adolescência.

*O Buzz Feed também fez uma lista legal com 65 livros para os 20 anos e a Flavor Wire listou 20 livros para mulheres de 20 anos

Resenhas de livros clássicos: “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde

Esse texto foi originalmente postado por mim mesmo no site Punk Brega.

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Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo”.

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. “Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer”. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.)

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Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: “E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos”

“O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

“Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia.” Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

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Você esquecia de devolver seus livros na biblioteca? – Charge

Essa é pros que esquecem (ou esqueciam) de devolver livros na biblioteca. Lembrando que nem só os bibliotecários ficam bravos com essa situação: o escritor americano Charles Bukowski costumava desaprovar o comportamento de fãs que diziam ter roubado seus livros de bibliotecas públicas; Bukowski dizia que, se não fossem os livros das bibliotecas, ele nunca teria sido escritor.

O quadrinho é de Tom Stratton e pode ser conferido no blog Bibliocomics.
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Resenhas de livros clássicos: Conheça “Viagem ao fim da noite” de Louis-Ferdinand Céline

Esse texto foi originalmente postado por mim mesmo no site Punk Brega.

Pessimista. Futuro colaboracionista do nazismo. Ácido. Dono de uma escrita crua e erudita ao mesmo tempo. Essa, carregada de neologismo, gírias, palavrões e exclamações em excesso jogadas ali, no meio das palavras. Assim é Céline e assim se desenrola “Viagem ao fim da noite”, seu primeiro e cáustico romance lançado em 1932. Influência seminal de Bukowski, dos beats e, principalmente, de Henry Miller – que rescreveu “Trópico de Câncer” após ler a “Viagem”, Céline inaugura uma nova fase na literatura mundial, dando voz às massas pobres – sem idealizá-las – e escrevendo de uma forma extremamente autobiográfica.

“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.”

“Os pobres são privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as misérias do mundo a sua cara, como um pano de chão.”

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Seu alter-ego, Ferndinand Bardamu, também luta na Primeira Guerra Mundial, vai trabalhar em plantações na África colonial, mora nos EUA e depois – médico formado – clinica nos subúrbios da França. Numa versão mais trágica da vida do autor, Bardamu é medíocre, perde pacientes para as moléstias, vive sem dinheiro, não conhece o amor – só guardando sentimentos carinhosos para a americana Molly e algumas crianças que aparecem no livro.

“Nunca estamos muito pesarosos que um adulto se vá, é sempre um pulha a menos na face da terra, é o que pensamos, ao passo que uma criança é, afinal, mais incerto. Há o futuro.”

Seu companheiro de viagem ao fim da noite é Robinson, trapaceiro que se envolverá até no assassinato de uma senhora, crime muito mais perverso e menos sofrido que o de Raslkolnikov, em “Crime e Castigo”. Robinson e Bardamu fazem dos protagonistas de “On The Road” heróis cheios de glamour. Dão caráter a Macunaíma, o herói que não tinha nenhum. O absurdo da guerra que Hemingway retrata em “Adeus às armas” nunca foi tão nonsense como no começo de “Viagem…” – quando o quase anarquista Bardamu se alista sem nenhum motivo em especial. O retrato da exploração colonial de “Coração das Trevas” de Conrad, parece lírico diante do cinismo e crueza com que Céline descreve o preconceito, a escravidão e o comércio entre brancos e negros. Cada palavra escrita por Céline é uma arma; uma pílula de revolta, ódio e horror.

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer”.

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A de se destacar que este francês está no seleto rol de escritores que realmente inventaram uma linguagem própria. Sua prosa – mesmo traduzida – soa como um dialeto particular, uma tentativa de reproduzir a oralidade e o fluxo de consciência, sem perder a erudição. Um Guimarães Rosa dos becos. O romance explicita o absurdo do imperialismo, do taylorismo e da guerra, sem propor grandes mudanças, saídas ou esperanças. Talvez seja por isso que, para desilusão da esquerda que aclamou seus dois primeiros romances, Céline tenha se tornado colaborador do nazismo na ditadura de Vichy. Sua crítica, ódio incurável e insatisfação niilista o levariam de encontro às soluções populistas de Hitler.

“É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui.”

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião”.

“Nós dois não chorávamos. Não tínhamos nenhum lugar onde pegar lágrimas”.

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