3 livros sobre… ser mulher

A convite da querida Juliana de Faria, do Think Olga, projeto bacana que quer pensar e discutir a feminilidade, elaborei esta lista. Vocês concordam?

1) “Casa de Bonecas”, Henrik Ibsen (Veredas)

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Como tantas outras obras do século 19, esta também é protagonizada por uma heroína meio fútil, em crise com seu casamento, esposa de um marido bem sucedido, com três filhos para criar. Mas, ao contrário das outras obras do século 19, nesta, a protagonista não trai o homem e acaba morta e humilhada. Nesta, Nora decide largar tudo – o marido, a casa, os filhos – para (o horror, o horror!) tentar ser feliz. E traz o seguinte diálogo:

Helmer: Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
Nora: E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
Helmer: E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e seus filhos?
Nora: Tenho outros tão sagrados como esses.
Helmer: Não tem. Quais poderiam ser?
Nora: Meus deveres para comigo mesma. (…) Creio que antes de mais nada, sou um ser humano tanto quanto você…

E Nora sai para nunca mais voltar. Um ano antes da publicação da peça, em 1878, Ibsen havia escrito que “uma mulher não pode ser ela mesma na sociedade contemporânea. A sociedade é masculina, com leis escritas por homens e com tribunais e juízes que julgam as mulheres a partir de um ponto de vista masculino”. Se você, mulher moderna do século 21, nunca sentiu isso na pele, considere-se sortuda. Fica difícil ser mais atual do que Ibsen.

2) “A Casa dos Budas Ditosos”, João Ubaldo Ribeiro (Objetiva)

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O enredo é famoso: são as memórias sexuais de uma senhora baiana de 68 anos, narrados em forma de conversa. Masturbação, sexo anal, relações com mulheres, estupro (que ela cometeu), incesto (com o irmão dela) y otras cositas más: não há nada que você possa imaginar que essa protagonista não fez – duas vezes. O tema recorrente são as possibilidades da sexualidade feminina: parecem maiores, são mais sutis – são mais buracos, afinal. E ainda traz uma pensata: “não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, (…) O próprio machismo se voltou contra os machões, tornou o homem prisioneiro dele mesmo, obrigado a não chorar, não broxar, não afrouxar, não pedir penico.” É bom para checar como anda o machismo dentro de cada uma de nós: se você acha que homem não chora, não broxa, tem que pagar a conta no primeiro encontro, além da do motel, e ainda segurar a porta para você entrar, então é triste dizer, mas moças, somos machistas também.

3) “O Poder no Mito”, Joseph Campbell

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O livro é uma longa entrevista com Joseph Campbell, professor de literatura&mitologia&religião americano, conduzido pelo jornalista Bill Moyers. Vida, morte, felicidade, o sentido das coisas: tudo é tratado em suas 295 páginas. Moyers insiste nas perguntas de gênero (por que é a mulher a culpada pelo pecado original? qual é o papel dela nas religiões orientais? por que a reza começa com “pai nosso que está no céu” e não “mãe nossa que esta no céu?”) e Campbell não parece muito preocupado com o assunto, responde tudo rapidamente. Ainda assim, o que ele fala é valioso. Para todas as culturas, das tribos norte-americanas às comunidades indianas, o poder da mulher é o da vida – ela que gera e traz à luz todos os seres vivos, e é responsável também pela fertilidade: a dela mesma e a da Terra. Para os homens, sobram os poderes restantes: a guerra, o sacrifício, a transformação. Mas não a vida. Para nós, mulheres modernas preocupadas com a carreira, os impostos, um mundo melhor, é algo que às vezes esquecemos. Mas que não deveríamos. Poder gerar uma vida é incrível. Não há nada mais feminino – e feminista – do que isso.

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