As comparações de Lobo Antunes

Li recentemente “Os cus de Judas” (Alfaguara), de Lobo Antunes e, olha, taí um português que gosta de fazer comparções. Várias são bem originais. Grifei algumas e fiz uma listinha com as favoritas.

cus-de-judas

  1. “…e a pequena vesga do strip-tease a despir-se no palco no mesmo alheamento cansado com que uma cobra velha muda de pele.” (pág. 27)
  2. “…todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranquilos como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odeón.” (pág. 31)
  3. “…mulher aparentada a um imenso glúteo rolante em que mesmo as bochechas possuíam qualquer coisa de anal e o nariz se aparentava a inchaço incómodo de hemorroida,…” (pág. 39)
  4. “Gosto dos seus gestos, assim automáticos e lentos como os das figuras dos relógios prosseguindo o seu trajectozinho obstinado,…” (pág. 41)
  5. “As órbitas do tocadores aparentavam-se a ovos cozidos fosforecentes, sem pupila,…” (pág. 46)
  6. “…retratos guardados no fundo das malas sob a cama, vestígios pré-históricos a partir dos quais poderíamos conceber, como os biólogos examinando uma falange, o esqueleto monstruoso da nossa amargura” (pág. 50)
  7. “…as mulheres com quem me não deitaria ofereceriam a outros as coxas afastadas de rãs de aulas de ciências naturais.” (pág. 51)
  8. “…com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, à maneira dos vincos concêntricos de areia dos jardins japoneses;…” (pág. 79)
  9. “Lisboa, mesmo a esta hora, é uma cidade tão desprovida de mistério como uma praia de nudistas,…”, (pág. 105)
  10. “…em quartos de hotel impessoais como expressões de psicanalistas,…” (pág. 108)
  11. “… a nossa presença apagava-se dos compartimentos que habitáramos, do mesmo modo que nos apressamos a lavar os dedos depois de apertar uma mão desagradável ou oleosa.” (pág. 118)
  12. “…principiei a amar essas tintas horríveis das paredes e essa ausência de móveis do mesmo modo que se gosta de um filho corcunda ou de uma mulher com mau hálito…”, (pág. 121)
  13. “…somos como dois judocas que se teme o suficiente para na se ferirem, e inventam, quando muito, falsos golpes inofensivos que se detêm a meio do trajecto,…” (pág. 139)
  14. “…penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde e sarnento num vão de escada para tentar dormir, procurando um aconchego impossível na madeira dura dos degraus.” (pág. 164)
  15. “…o seu rosto, de olhos fechado e de boca aberta, assemelhou-se por instantes ao das velhas que comungavam nas igrejas da minha infância, velhas de dentadura solta, arfando, de língua de fora, pelo círculo branco da hóstia.” (pág. 180)

O livro, é claro, trata da experiência de Lobo Antunes como médico de guerra em Angola, entre em 1971 e 1973, nas lutas de independência. Os relatos das feridas de batalhas são de partir o coração. A guerra civil que seguiu a libertação durou até 2002.

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Resquícios da guerra civil angolana, em 2003. Foto de Denis Doyle.

 

 

 

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