Resenhas de clássicos: “A Revolução dos Bichos”, George Orwell

esse post foi originalmente escrito em 2003 para o Zine Kaos.

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George Orwell fez parte de um grupo de escritores engajados que não se prendeu apenas às palavras partindo para ação. Um grupo de escritores que viveram uma época de revoluções (principalmente a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Espanhola, mas também a Revolução Mexicana e as duas Grandes Guerras Mundiais). George abandonou seu passado burguês, seu antigo nome (Eric Arthur Blair) e foi lutar por seus ideais assim como John Reed e Ernest Hemingway. O escritor inglês se meteu na sangrenta Guerra Civil espanhola lutando no POUM (Partido Obreiro de Unificação Marxista) ao lado dos anarquistas, ao contrário da maioria dos voluntários que se alistaram nas Brigadas Internacionais, ligadas ao ortodoxo Partido Comunista Soviético. Da guerra saiu decidido por um socialismo independente, criticando duramente o totalitarismo de Stálin, essa crítica acabaria se tornando livro em A Revolução dos Bichos, publicado em 1945.

A Revolução dos Bichos é uma dura crítica ao fim levado pela Revolução Russa de 1917, à sua burocratização e sua transformação em ditadura. Não é um ataque ao socialismo em si, mas sim ao totalitarismo. Essa crítica voltaria na outra obra prima de Orwell, “1984”. Publicado em 1949, esse livro retrata uma sociedade em um futuro próximo, completamente repressora, onde todas as pessoas são vigiadas pelo “Big Brother”.

A Revolução dos Bichos

Voltando a “Revolução dos Bichos”, o livro não deixou sua marca por uma linguagem ou narrativa inovadora, mas sim por  sua crítica ácida à nossa sociedade e, não só à Revolução Russa, mas a todas revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder, que acabam sem o povo soberano, sem ser estabelecida a igualdade entre todos… A narrativa de Orwell é extremamente simples, concisa e jornalística, seu curto livro é contado como uma fábula moderna, na qual os animais falam e pensam. Suas metáforas são diretas: o corvo negro representa os padres, que pregam a salvação aos animais explorados e uma vida melhor (uma montanha de açúcar) àqueles que trabalharem em vida; as ovelhas representam os homens que, como um rebanho, seguem os líderes sem pensar; os porcos são os animais inteligentes que conduzem a revolução e depois acabam se tornando a nova elite (Os burocratas da União Soviética). Alguns personagens se assemelham aos líderes soviéticos, como é o caso dos porcos Napoleão (Stálin, o líder tirânico que estimula o culto a sua personalidade e persegue cruelmente seus adversários), Bola de Neve (Trotsky, como o líder perseguido, apontado como inimigo, e que tinha como intuito espalhar a revolução para todo o mundo) e Major (Lênin, o primeiro revolucionário, que passa os ensinamentos a seus subordinados, e que após sua morte tem seu corpo exposto e venerado pelos outros animais, como a múmia de Lênin na URSS).

Os animais de Orwell representam o proletário enquanto nós humanos somos a burguesia exploradora… Após a bem sucedida revolução, os bichos passam por todas as etapas conhecidas pela humanidade (a euforia, as tentativas de contra revolução e a formação de uma nova elite dominante…) No final genial os porcos vão cada vez mais se assemelhando aos humanos, no jeito de se vestir, nos hábitos, na forma de exploração e Orwell termina com a constatação : “(…) já se tornara impossível distinguir quem era homem e quem era porco.”

24/08/03.

Título original: Animal Farm
Autor: George Orwell

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7 livros para ser uma pessoa melhor

Livros são armas poderosas para tornar o mundo um lugar melhor. Aqui algumas sugestões de leitura para você se sentir melhor também.

1) “O Filho de Mil Homens”, Valter Hugo Mãe (Cosac Naify)

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Crisóstomo tem 40 anos e nunca teve filhos – sua maior tristeza. Sedento por uma família, ele acaba inventando uma com as pessoas que encontra ao seu redor: indivíduos inesperados –  tristes ou abandonados. E acaba provando que isso é tão família quanto todas as outras. Um livro belo e sensível.

2) “Ensaio Sobre a Cegueira”, José Saramago (Companhia das Letras)

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Quando a humanidade inteira (com exceção de uma mulher ) fica cega, aos poucos, todas as regras sociais se esvaem. O que sobra é o pior dos homens: a covardia, o egoísmo, a violência. Às vezes, é preciso ir até o inferno e voltar para se tornar alguém melhor. É o que você vai sentir lendo esse livro.

3) “Abusado”, Caco Barcellos (Record)

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Para escrever sobre os bastidores do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, Barcellos subiu o morro Santa Marta e acompanhou de perto a vida de Juliano VP, pseudônimo de um dos chefes do tráfico local. É uma história dura, cruel – e serve para repensar a vida inteira.

4) A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen“, Eugen Herrigel

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“(…) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.” Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. Esses são alguns ensinamentos dessa bela introdução à filosofia oriental

5) “Germinal”, Emilé Zola 

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Como um jornalista gonzo do século XIX, Émile Zola passou dois meses vivendo com os mineiros de carvão da França para escrever sua obra-prima, “Germinal”, um relato fiel da dura vida dos carvoeiros e do começo dos movimentos operários. Neste belo trabalho, não existem heróis ou vilãos, tanto burgueses quanto proletários são capazes de ações desprezíveis e veneráveis. Importante para abandonarmos nossa visão maniqueísta de mundo e para enxergarmos com menos preconceito a vida dos que nascem com menos.

6) “1984”, George Orwell (Companhia das Letras)

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A história aterrorizante do funcionário público que tenta se rebelar contra um estado autoritário,, manipulador e violento, liderando por um chefe onisciente e cruel, vai fazer você valorizar o nosso mundo – e vai despertar a sua vontade de lutar contra qualquer tentativa de ditadura ou autoritarismo na vida real.

7) “O Escolhido Foi Você”, Miranda July (Companhia das Letras)

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Quando Miranda July resolveu conhecer de perto a vida das pessoas que anunciam seus bens nos classificados locais, acabou trombando com algo que não esperava: histórias de vida banais, mas tão sinceras e humanas, que fazem com que ela repense sua própria existência. O mesmo vai acontecer com você.

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