Resenhas de livros clássicos: “O amante de Lady Chatterley”, D.H. Lawrence

originalmente postado no site Punk Brega

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O primeiro homem a desabrochar Anaïs Nin(1903-1977) para o sexo e a procura da plena felicidade “física / psicológica” não foi seu amante Henry Miller, foi D.H. Lawrence(1885-1930). E a autora francesa nem precisou dormir com o Lawrence, bastou o contato com as polêmicas obras do modernista inglês, para que ela escrevesse seu primeiro livro “D.H. Lwarence: An Unprofessional Study”, publicado em 1932.

Lawrence morrera há apenas 2 anos, e era visto como um pornógrafo, autor menor, cuja obra estava mais ligada a escândalos que a excelência literária. O escritor tivera uma carreira prolífica: pintara quadros e escrevera poesias, contos, peças de teatro e romances. Nessa última seara cravou o mais doloroso prego em sua cruz: “O Amante de Lady Chatterley”(1928). Romance robusto, “O Amante de Lady Chatterley” nos leva a Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial, um país em rápida modernização, um império aristocrático dançando no ritmo do jazz e transformando-se em potência capitalista. São os últimos anos da hegemonia britânica, antes da ascensão americana, que se cristalizaria com a Segunda Guerra Mundial. Sua personagem principal é Constance – Lady Chatterley – jovem burguesa de formação livre e intelectual que se casa com o aristocrata Clifford, dono de minas de carvão em Wrgaby. Clifford pouco se importa com o sexo, mais preocupado com a “felicidade” intelectual/espiritual e posteriormente com seus negócios. Depois da participação na guerra, Clifford volta impotente e em uma cadeira de rodas. Constance – que havia perdido a virgindade antes do casamento – passa a ter uma vida estéril, vazia e sem emoção. Incapaz de encontrar o equilíbrio entre a felicidade física(que ela busca em um caso com o escritor irlandês Michaelis) e a felicidade espiritual(que às vezes ela pensa ter nos seus diálogos com Clifford ou em seus pequenos passeios pelo bosque). Quem vai chacoalhar sua vida e mostrar que as duas coisas são possíveis é o guarda-caças Oliver Mellors – por quem ela irá se apaixonar lentamente.

“O Amante de Lady Chatterley” foi censurado por mais de 3 décadas na Inglaterra e em diversos países de língua inglesa. O uso de palavras “indecentes”, as descrições dos atos sexuais, a relação entre uma burguesa e um trabalhador e a crítica à guerra, tudo isso era uma afronta à aristocrática ilha britânica. Para tentar ver a obra publicado em sua terra natal, Lawrence escreveu duas versões editadas do romance, que de tão diferentes podem ser consideradas novos livros. Só nos anos 60, com a liberação sexual, o sucesso dos autores beats e a descoberta de Henry Miller, é que a obra receberia a devida atenção. Para o leitor moderno, “O Amante de Lady Chatterley” não representará grandes sustos. A maior parte do livro trata das dúvidas existenciais de Constance, suas paixões e a vontade de escapar de Wrgaby. Quase uma “Madame Bovary”, menos ingênua e com um final mais feliz à sua espera. O clima esquenta no terço final da história. As relações entre Mellors e Constance são retratadas explicitamente, mais como algo natural, do que como pornográfico. O sexo é algo do qual nos devemos envergonhar? Algo extraordinário? Não, ele faz parte da receita da felicidade. O ritmo aumenta, as reflexões de Mellors e Constance passam a se tornar mais apaixonadas. Algumas passagens lembram os grandes discursos libertários de Henry Miller. Há um romantismo primitivista sempre presente. Um olhar crítico em relação à industrialização, ao ritmo acelerado e a ligação da sensação de satisfação, com a sensação de posse(“Se fosse possível fazê-las compreender que há grande diferença entre viver e gastar dinheiro. Se fossem educadas de modo a ‘sentir’ em vez de ‘ganhar e gastar’(…)”.) Pode soar ingênuo, mas são questões atuais, postas em pauta constantemente em nossos anos “sustentáveis”. É atual também a busca de uma terceira opção, entre o capitalismo industrial e a doutrinação bolchevique.

O romance que parecia lento acaba no ápice. É como se todo o livro fosse um grande relacionamento. Do primeiro olhar ao gozo triunfante. A busca dos personagens é pela satisfação completa, independente de sua classe, idade ou da opinião pública. Busca pelo prazer – não o prazer hedonista de orgias, eternas bebedeiras, grandes gastos -, mas um prazer quase epicurista do amor, da boa comida, da diversão possível.

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Trechos:

 -Aí está! Alguma coisa invisível! Para mim mesmo, sou alguma coisa. Compreendo o sentido da minha existência, embora admita que ninguém mais a compreenda.

_E essa existência perderia o sentido se vivêssemos juntos?(…)

-Talvez.

_E qual o sentido da sua existência?

_Já disse que é invisível. Não creio no mundo, nem no dinheiro, nem no progresso, nem no futuro da nossa civilização. Para que a humanidade tenha um futuro é necessário que uma grande mudança se dê.(…)

_Quer que eu lhe diga? Quer que eu lhe dia o que você tem e os outros homens não têm?(…) Coragem dos próprios sentimentos, coragem da ternura; essa coragem que o faz pôr a mão no meu rabo e dizer que tenho um magnífico rabo!

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3 livros para NÃO ler quando você tomar um pé na bunda

Acabou de terminar um romance e está a fim de ler um pouco para distrair a cabeça? PASSE LONGE DESTES 3 livros! A listinha que elaboramos abaixo reúne 3 histórias de amor com final infeliz, e que foram muito importantes para o seu tempo.

Atenção, o blog 3 LIVROS SOBRE adverte: Evite ler após um pé na bunda
1) Os sofrimentos do jovem Werther, J. Wolfgang von Goethe – Editora Nova Alexandria
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Lembra quando a música “Suicide Solution” do Ozzy Osbourne foi acusada de incentivar o suicídio de centena de jovens? Pois é, o impacto deste romance alemão  foi parecido na Europa do século XVIII. Marco do romantismo e da cultura alemã, “Os sofrimentos do jovem Werther” narra – através  de cartas – uma paixão arrebatadora que levará o apaixonado do título à tragédia. Fique longe se você estiver com o coração partido.

2) Bonsai, Alexandro  Zambra – Cosac Naif
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Primeiro romance do poeta chileno Alejandro Zambra, “Bonsai” é uma narrativa curta e contemporânea de uma história de amor entre dois jovens universitários. O primeiro parágrafo já entrega o enredo deste livro minimalista de final trágico: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura.”

3) Romeu e Julieta, William Shakespeare – Martin Claret

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Um clichê necessário, “Romeu e Julieta” – peça de William Shakespeare – é o grande símbolo do amor impossível. Na Itália renascentista, dois jovens de famílias rivais se apaixonam loucamente. O amor proibido vai levar o jovem casal à morte depois de uma sequência de erros e falhas de comunicação impossíveis de se repetirem nos nossos tempos de celular e redes sociais. O enredo da peça tem sua origem na Grécia Antiga, mas a versão de Shakespeare acabou se tornando a definitiva e ainda ganha inúmeras adaptações para teatro, literatura e cinema.

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O segredo para escrever boas personagens femininas, de acordo com George R. R. Martin

Perguntado mais uma vez (até quando, hein?) como o autor de “Guerra dos Tronos” fazia para inventar personagens femininas tão fortes e complexas, George R. R. Martin deu a resposta definitiva. E um belo chega-pra-lá.

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“Entrevistador: Tem uma coisa que é realmente interessante nos seus livros: você escreve personagens femininas muito boas e muito diferentes entre si. De onde vem isso?

George R. R. Martin: Sabe, eu sempre considerei que as mulheres fossem… pessoas mesmo.”

Chocante, né?

Via Buzz Feed, que colecionou outras perguntas igualmente cretinas sobre o assunto.

qualquer bobagem

 

3 livros para ateus

Religião para Ateus“, Alain De Botton.

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Ao contrário do que muita gente pensa, o principal objetivo dos ateus no mundo não é pregar o satanismo ou acabar com a sua religião favorita. (Mesmo porque, quem não acredita em Deus também não acredita em Satã, né, moçada?) No livro “Religião para Ateus“, do filósofo pop Alain de Botton, o que se propõe é uma forma de organização e religiosidade para quem não crê no pacote “Deus, vida após a morte e milagres”. Botton procura aprender com as práticas e os ritos das religiões e  procura, também, trazer essas práticas para o mundo de quem não crê em Deus. Ele enxerga vantagens em organizar sermões sobre a vida prática, por exemplo, coisa que sua “Escola pra vida” já faz. Um bom livro para ajudar os ateus a recuperarem o senso de comunidade e conforto que geralmente vem atrelado a algum tipo de religião.

O Anticristo“, Nietzsche.

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Polêmico, mal lido e admirado por muitos jovens, o pensador e filólogo Friedrich Nietzsche virou uma espécie de Che Guevara da filosofia  – com seu rosto bigodudo estampado em camisetas e capas de livro. Atrás do hype, encontra-se uma filosofia sólida na qual “O Anticristo” é talvez um dos livros mais fáceis de digerir. Aqui, Nietzsche não perde tempo falando do “anticristo” bíblico. O alemão usa seu livro para criticar duramente o catolicismo (e algumas outras religiões como o budismo e os luteranos) e no final até cria uma “lei contra o cristianismo”.  O objetivo de Nietzsche é pregar uma vida em que os homens possam ser felizes sem crenças proibitivas e dogmas que os impeçam de realizar-se plenamente.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo“, José Saramago

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Como seria um evangelho escrito de acordo com o ótica de um Jesus mais humano, cheio de dúvidas, desejos e   cuja tragédia é inevitável destino traçado por seu pai? José Saramago cria em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” uma obra-prima provocativa e reflexiva que reinterpreta a visão dos evangelhos de uma maneira bonita e solidária.

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5 marcadores de páginas muito criativos para seus livros

Hey, depois do sucesso do post com “3 marcadores de livros criativos e divertidos“, resolvemos reunir mais 5 exemplos bem legais de bookmarks pra vocês. Esperamos que gostem! 😀

1) Marcadores inspirados em clássicos como “Moby Dick” e “O Chamado de Ctulhu”

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Tirado desse behance aqui

2) Bonequinhas de papel super estilosas
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Garimpado nesse blog aqui

3) Mancha de sangue

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Dá pra compra ele aqui.

4) O anúncio que é uma barata
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Esse aí é um anúncio de exterminador de insetos em formato de marcador de livro. Gênio, né?

5) Não meta o nariz do livro dos outros
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Gostou? Dê uma fuçada no site dos caras!

qualquer bobagem

3 quadrinhos eróticos para mulheres

por Fred Di Giacomo

“Omaha: a stripper”, Reed Waller e Kate Worley

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Existe algo em comum entre o seriado “Sex and the City” e as músicas do Chico Buarque? Bom, eu aposto que existe e o quadrinho “Omaha, a stripper” também possui. Sabe o que é? É aquela tal “compreensão da alma feminina” que toda mulher adora. Não à toa, essa HQ tem uma mulher envolvida na sua criação. Sim, ninguém melhor para escrever sobre sexo para mulheres do que uma mulher que não vai ficar só bolando milhares de fantasias para satisfazer homens nerds tarados. Omaha é uma gata(literalmente) criada por Reed Walker, mas cujas histórias são escritas pela sua ex-esposa Kate Worley. Ela vem do interior dos EUA e se tona stripper e modelo para ganhar a vida. Aqui a temperatura é quente, mas sem apelação com bastante espaço pro roteiro e algum romance.

“Giovanna”, Giovanna Casotto

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“Giovanna” é uma coletânea de contos com fantasias femininas estreladas por italianas voluptosas que não lembram em nada as modelos anoréxicas que desfilam nas propagandas e novelas. A autora  (Giovanna Casotto) tira fotos dela mesma – nas mais variadas posições – e depois as usa como molde para suas personagens cheias de curvas. Aviso importante: as ilustrações da senhora Casotto são extremamente explícitas.

“Essa Bunch é um amor”, Aline Kominsky-Crumb

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“Essa Bunch é um amor” não é “só” uma HQ erótica, mas fala bastante de sexo. Em suas histórias autobiográficas, Aline Kominsky-Crumb relembra como perdeu a virgindade sem muito glamour na adolescência, retrata suas aventuras como uma groupie atrás de bandas de rock n’ roll e também confessa uma pulada de cerca quando já era casada com o gênio dos quadrinhos Robert Crumb. Todos os momentos são extremamente sinceros e comuns, registrando a sexualidade feminina sem tabus, mas também sem a tradicional ótica masculina da coisa – onde o único objetivo das personagens ninfomaníacas é satisfazer as taras dos marmanjos sonhadores.

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Você esquecia de devolver seus livros na biblioteca? – Charge

Essa é pros que esquecem (ou esqueciam) de devolver livros na biblioteca. Lembrando que nem só os bibliotecários ficam bravos com essa situação: o escritor americano Charles Bukowski costumava desaprovar o comportamento de fãs que diziam ter roubado seus livros de bibliotecas públicas; Bukowski dizia que, se não fossem os livros das bibliotecas, ele nunca teria sido escritor.

O quadrinho é de Tom Stratton e pode ser conferido no blog Bibliocomics.
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qualquer bobagem