“Relato de um Náufrago” – um livro de Gabriel García Márquez (1927 – 2014)

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Gabriel García Márquez morreu hoje. Provavelmente, seu melhor livro é o unânime “100 anos de solidão”, mas guardo especial carinho pela reportagem “Relato de um Náufrago”, que o Gabo jornalista escreveu sobre um marinheiro que passou 10 dias perdidos no mar, após o naufrágio de um navio cheio de contrabando. Uma espécie de “Vida de Pi” real. Foi minha avó materna que me emprestou o livro e o recomendou. Ela já tinha mais de 80 anos nessa época e eu era um dos seus netos mais novos, filho da sétima filha de oito irmãos. Foi um dos momentos de maior intimidade/troca que eu tive com ela. Uma das boas memórias que guardo da nossa relação e uma das leituras (como “O Anjo Pornográfico”) que me jogaram de cabeça nesse negócio de jornalismo. Gabriel García Marquéz morreu hoje como um dia morreu minha avó e como todos vamos morrer. Sou agradecido por ele ter deixado por seu caminho livros que mudam vidas, engravidam a memória e unem pessoas.

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Leia a resenha do livro “Trilogia Suja de Havana” do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez.

Esse post foi originalmente publicado no site Punk Brega, de onde mantive os links do texto

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Capa da edição da Cia das Letras para o romance de Pedro Juan Gutiérrez

Capa da edição da Cia das Letras para o romance de Pedro Juan Gutiérrez

por Fred Di Giacomo

Em todas as biografias do cubano Pedro Juan Gutiérrez – nascido em 27/01/1950 – você vai encontrar as informações de que ele é um Henry Miller dos trópicos( Mesmo que Miller também tenha seus trópicos de Câncer e de Capricórnio) ou um Bukowski que trocou o whisky barato por rum vagabundo. Você também vai saber que este filho de sorveteiro já teve as mais variadas profissõesdesde os onze anos de idade: vendedor de jornais, instrutor de caiaque, cortador de cana de açúcar, operário agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista.Mas porque tanta preocupação com a vida do autor? Porque a escrita de Pedro Juan, assim como dos autores acima citados, é autobiográfica. O personagem principal de sua principal obra é um ex-jornalista careca, que vive de bicos próximo ao Malecon – calçadão barra-pesada de Cuba – traçando todas as mulheres que pode, enquanto tenta fugir das crises que se abatem sobre sua cabeça. Uma das crises é a econômica que varreu Cuba a partir dos anos 90 com o fim da URSS e o endurecimento do embargo norte-americano. Outra, a crise pessoal que fez o autor pensar diversas vezes no suicídio, como deixa claro em alguns trechos de sua obra e em entrevistas: Sempre sonhava em pular dali(do beiral do prédio) e sair voando e me sentir o cara mais livre do mundo.

“Trilogia Suja de Havana” são três livros – reunidos em um só volume – escritos dolorosamente entre 1994 e 1997. Todos são formados por pequenos contos e crônicas que se entrelaçam formando uma única narrativa, a história de Pedro Juan e seus vizinhos miseráveis, se virando para sobreviver na ilha. Alguns pontos são sempre reforçados pelo autor repetitivamente, como se para exorcizar um trauma, como se tivesse que afirmar diversas vezes aquela realidade até que ela se tornasse ficção. Algumas das frases que vão criando o clima de cotidiano na obra: No total vivem 50 pessoas (amontoados no cortiço). Subo os oito andares até o terraço. (O elevador está sempre quebrado). Não precisa muito: algum dinheiro, comida, um pouco de rum, charutos e uma mulher. Nessa filosofia de vida, Pedro Juan se assemelha muito a Henry Miller que dizia que só queria Um punhado de livros, um punhado de sonhos e um punhado de vulvas. Fazendo uma rápida análise subjetiva, o primeiro volume “Ancorado na Terra de Ninguém” é muito autobiográfico, trazendo um Pedro Juan que parece ter acabado de largar o jornalismo, com alguns amigos intelectuais, seu filho adolescente, sua busca pelo equilíbrio zen. “Nada para fazer”, escrito cerca de um ano depois, é mais depressivo. O alter-ego do autor está ainda mais mergulhado na miséria, mais marginal, cínico, transformado quase num cafetão egoísta. A terceira parte “Sabor a Mi” é a mais ficcional. Alguns de seus contos nem são narrados em primeira pessoa, os narradores se multiplicam em uma rica fauna caribenha que vai de traficantes de drogas, à uma mulher violentada por ladrões, passando por uma temporada de dois anos de Pedro Juan preso por se prostituir em Cuba. (Coisa que Gutiérrez afirma nunca ter feito na vida real, em entrevista dada a revista Playboy).

Em “Trilogia”, Pedro Juan é um jornalista desempregado, que abandonou o trabalho por não querer mais fazer matérias parciais, nas quais não pode mostrar a realidade do país. Por isso se dedica à literatura e seu “realismo sujo”. No entanto, o Pedro Gutiérrez de carne e osso trabalhou como jornalista até publicar seu livro em 1998. Formado em 1978 pela “Universida de La Habana” mediante um curso especial para trabalhadores, ele teve que ficar fora de Cuba três meses divulgando suas obras na Espanha. Quando retornou foi demitido da revista “Bohemia”, da qual era colaborador, por ter, supostamente, se ausentado sem permissão. Sobre a demissão Pedro Juan fala, sem criticar muito o governo, em entrevista para a Playboy: O governo até me convidou, no ano passado, para promover “A Melancolia dos Leões”(obra de realismo fantástico de Guitiérrez). Cuba não é uma ditadura policial, onde vão te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem tornar as coisas difíceis para você. Eu, por exemplo, fui banido da profissão de jornalista.

Pedro Juan Gutierrez dança com prostituta na Boca do Lixo de São Paulo. Leia mais sobre essa noite aqui: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/perdido-numa-noite-suja-com-pedro-juan-gutierrez/

Pedro Juan Gutierrez dança com prostituta na Boca do Lixo de São Paulo. Leia mais sobre essa noite aqui: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/perdido-numa-noite-suja-com-pedro-juan-gutierrez/

Mesmo, tendo emprego enquanto escrevia sua primeira e mais conhecida obra, Gutiérrez também teve que fazer alguns biscates – única alternativa, junto com a prostituição, que resta aos personagens de “Trilogia”. Em “Os Canibais”, conto da última parte do livro, um dos personagens chega a vender fígado humano, fingindo ser fígado de porco. Aquilo é uma mistura de realidade e ficção. Eu não lidava com latinhas, nem com fígado, muito menos humano. Vendia canecas, isqueiros, bonés, explica o autor. Assim como a maioria de seus personagens, Pedro Juan dá um jeito de sobreviver. Se é atacado pela polícia(O que há de mais próximo de um delinquente é um policial), pela fome e por ciclones, ele responde com muito sexo: promíscuo, sensual, quase ginecológico de tão descritivo. Mulatas, brancas, negras, velhas e jovens, gordas e magras. Sujas, suadas, cansadas, todas envolvidas em uma orgia que atravessa as páginas de cada conto. Em certo momento o narrador se preocupa: transou com mais de 20 mulheres em um ano e tem medo da Aids. Quando não se escora no sexo, enche a cabeça de rum, o mais barato que tiver, ou maconha, charutos, ou mesmo uma simples gargalhada para lhe animar o moral e não fazer como os fracos que se atiram de cima dos velhos edifícios de Havana. É isso que eu quero: aprender a rir às gargalhadas de mim mesmo. Sempre, mesmo que me cortem os ovos, diz em “Esmagado pela merda”, história na qual conhece um velho diabético que teve as pernas e os testículos amputados graças às diabetes. Ou então: Estava pensando em todas essas coisas e de repente me levantei com um pulo e ri. Amplamente. Um bom sorriso, desnecessário e absurdo, é um tônico. Sempre dá resultado comigo, de “Solitário resistindo”. Segundo o Gutiérrez, alguns autores tem fixação por crimes e arranjam diversas maneiras diferentes de matar seus personagens ao longo de novelas policiais. Já ele tem fixação por sexo, e por isso este se torna personagem principal de sua obra. Talvez o horror à morte aliado à obsessão pelo ato sexual, esteja incrustado no próprio DNA de sobrevivência de Pedro Juan. Ele nega a possibilidade da morte, do fracasso, do suicídio, se agarrando desesperadamente ao prazer de seus orgasmos, em uma atitude freudiana.

Em uma entrevista à revista Bravo!, na época do lançamento de “Trilogia Suja de Havna”, Gutiérrez diz que só conheceu Bukowski e Henry Miller pouco tempo antes de terminar o livro. Talvez sua proximidade com os dois esteja na resolução que tomou aos vinte anos para se tornar um bom escritor: Tengo que tener muchas mujeres, viajar todo lo que pueda y conocer todo tipo de gente. Sua primeira paixão platônica foi aos 8 anos por uma puta, e sua primeira vez aos 17 com uma bezerra. Sua pintura e sua escrita também tem influência dos quadrinhos norte-americanos, que leu às dezenas em sua infância, desde que se alfabetizou quando tinha entre 6 e 7 anos. De outra de suas influências, Ernest Hemingway, Gutiérrez leva a profissão de fé: “um escritor precisa manter o detector de merda funcionando.” Esse lema está presente em todo o conto “Eu, revirador de merda”, de “Ancorado na Terra de Ninguém”, como se pode perceber nos trechos:

Este é meu ofício: revirador de merdaA arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Quem atinge o repouso em equilíbrio está perto demais de Deus para ser artista.

Mas, e afinal, descrevendo tanta miséria, e ainda assim amando Cuba, Pedro Juan e sua “Trilogia Suja de Havana” estão ao lado de Fidel ou de seus opositores, exilados em Miami? O autor evita entrar em discussões ideológicas ao máximo. Sua obra está no limite entre jornalismo e ficção. Na tênue linha que diz que Hunter S. Thompson é jornalista que e Burroughs é escritor. Não há grandes teorias ou elucubrações, seu texto retrata o submundo cubano como se fosse uma fotografia, uma reportagem que busca a utópica objetividade, que dá voz aos personagens reais, para que eles deixem nas páginas o registro de suas existências, sem fazer muito juízo de valor. Quando a revista Veja tenta tirar uma declaração mais política de Gutiérrez ele responde: É incrível o comentário que li no Miami Herald. Eles não falam de literatura, falam como se eu fosse um político. As leituras dos dois lados me dão raiva, porque diminuem o valor de meu trabalho literário e tentam me manipular. Por isso trato de me afastar o máximo possível da política. Façamos a vontade do autor e encerremos esta resenha com o fim do raio-x de sua literatura crua, sensual, sincera e desesperada. Os governos mudam, mas a natureza humana permanece igual.

-Leia uma excelente reportagem com Pedro Juan Gutiérrez vagando pela Boca do Lixo de São Paulo

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Resenhas de clássicos: “A Revolução dos Bichos”, George Orwell

esse post foi originalmente escrito em 2003 para o Zine Kaos.

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George Orwell fez parte de um grupo de escritores engajados que não se prendeu apenas às palavras partindo para ação. Um grupo de escritores que viveram uma época de revoluções (principalmente a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Espanhola, mas também a Revolução Mexicana e as duas Grandes Guerras Mundiais). George abandonou seu passado burguês, seu antigo nome (Eric Arthur Blair) e foi lutar por seus ideais assim como John Reed e Ernest Hemingway. O escritor inglês se meteu na sangrenta Guerra Civil espanhola lutando no POUM (Partido Obreiro de Unificação Marxista) ao lado dos anarquistas, ao contrário da maioria dos voluntários que se alistaram nas Brigadas Internacionais, ligadas ao ortodoxo Partido Comunista Soviético. Da guerra saiu decidido por um socialismo independente, criticando duramente o totalitarismo de Stálin, essa crítica acabaria se tornando livro em A Revolução dos Bichos, publicado em 1945.

A Revolução dos Bichos é uma dura crítica ao fim levado pela Revolução Russa de 1917, à sua burocratização e sua transformação em ditadura. Não é um ataque ao socialismo em si, mas sim ao totalitarismo. Essa crítica voltaria na outra obra prima de Orwell, “1984”. Publicado em 1949, esse livro retrata uma sociedade em um futuro próximo, completamente repressora, onde todas as pessoas são vigiadas pelo “Big Brother”.

A Revolução dos Bichos

Voltando a “Revolução dos Bichos”, o livro não deixou sua marca por uma linguagem ou narrativa inovadora, mas sim por  sua crítica ácida à nossa sociedade e, não só à Revolução Russa, mas a todas revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder, que acabam sem o povo soberano, sem ser estabelecida a igualdade entre todos… A narrativa de Orwell é extremamente simples, concisa e jornalística, seu curto livro é contado como uma fábula moderna, na qual os animais falam e pensam. Suas metáforas são diretas: o corvo negro representa os padres, que pregam a salvação aos animais explorados e uma vida melhor (uma montanha de açúcar) àqueles que trabalharem em vida; as ovelhas representam os homens que, como um rebanho, seguem os líderes sem pensar; os porcos são os animais inteligentes que conduzem a revolução e depois acabam se tornando a nova elite (Os burocratas da União Soviética). Alguns personagens se assemelham aos líderes soviéticos, como é o caso dos porcos Napoleão (Stálin, o líder tirânico que estimula o culto a sua personalidade e persegue cruelmente seus adversários), Bola de Neve (Trotsky, como o líder perseguido, apontado como inimigo, e que tinha como intuito espalhar a revolução para todo o mundo) e Major (Lênin, o primeiro revolucionário, que passa os ensinamentos a seus subordinados, e que após sua morte tem seu corpo exposto e venerado pelos outros animais, como a múmia de Lênin na URSS).

Os animais de Orwell representam o proletário enquanto nós humanos somos a burguesia exploradora… Após a bem sucedida revolução, os bichos passam por todas as etapas conhecidas pela humanidade (a euforia, as tentativas de contra revolução e a formação de uma nova elite dominante…) No final genial os porcos vão cada vez mais se assemelhando aos humanos, no jeito de se vestir, nos hábitos, na forma de exploração e Orwell termina com a constatação : “(…) já se tornara impossível distinguir quem era homem e quem era porco.”

24/08/03.

Título original: Animal Farm
Autor: George Orwell

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Resenhas de clássicos: “Trópico de Câncer” de Henry Miller

originalmente postado (por mim mesmo) no site Punk Brega
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Como cenário a Paris entre guerras, como definição as palavras do próprio autor: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”, como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias…” E assim a vida se transforma em arte nas letras do pai da geração beat, o maldito, “Henry Miller”. Nascido no Brooklyn em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Allen Ginsberg, a geração hippie, beatnick e sua obsessão por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry influenciou esses poetas “marginais” até na forma autobiográfica de escrever já que em seus livros ele é o personagem principal, mas suas histórias não são totalmente reais, são uma mistura de ficção e realidade num tipo de Bukowski mais elaborado e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de escritores “eróticos” como Céline e DH Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: an unprofissional study”, livro de sua amante, Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de Trópico de Câncer, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat, Lawrence Ferlinghetti, a publicasse: é humano, demasiadamente humano. É um homem em busca de si mesmo, uma descoberta a cada página, uma canção de libertação…

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir, Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso, está duro e vive de bicos (a prisão dos escritores: o jornalismo) e ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões surrealistas com relatos crus do cotidiano de Miller. O Clima é retratado fielmente no clássico erótico “Henry e June” de Philip Kaufman (diretor também de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa: a vida. E essa Miller vive com tesão!

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Nos momentos “filosóficos” Miller remete a Nietzsche, filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia, que busca desmascarar o mundo dos ídolos, o Deus que não sabe dançar, que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz. O Henry Miller de Trópico de Câncer/Henry e June (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras, despertá-lo para a vida nessa existência que é única, como ele mesmo diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. E essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa, descreve-a de uma forma claustrofóbica, que o sufoca, pouco a pouco a até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite, buscando a paixão total, o fogo da criação, já que a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como um modernista brasileiro, como “Oswald de Andrade” na peça “A morta” , ele clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem!

Fred Di Giacomo, 22/05/04
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Resenhas de clássicos: “Odisséia” de Homero

Este texto foi originalmente publicado por mim mesmo no site Punk Brega.

A “Odisséia” é o poema épico que narra todas as aventuras vividas por Ulisses – versão latina do nome de Odisseu – em seu longo retorno da Guerra de Tróia para sua casa em Ítaca. O poema, assim como a “Ilíada”, é atribuído ao poeta grego Homero, que teria vivido no século VIII a.C. (Existe uma grande polêmica sobre a existência ou não de Homero, muitos julgam que a obra é uma composição coletiva de diversos aedos gregos, reunidas por algum organizador que pode ter sido ou não Homero.)

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24 cantos que funcionam como capítulos – compõe a “Odisséia” que se divide em três grandes partes a “Telemaquia”, na qual Telêmaco, o filho de Ulisses, começa sua busca pelo pai, desaparecido há anos, depois de terminada a Guerra de Tróia; a narração no palácio de Alcino das aventuras de Ulisses até ser mantido preso pela ninfa Calipso em sua ilha; e a vingança de Ulisses, quando ele volta para Ítaca disfarçado para punir os pretendentes que querem casar com sua esposa Penélope e consomem os seus bem em grandes banquetes. Segundo Thomas W Allen, em texto de 1907, o núcleo primitivo da narrativa são as lendas – quase contos – de Ulisses no palácio de Alcino quando ele relata seu encontro com os terríveis Ciclopes, a feiticeira Circe – que transforma seus aliados em porcos – e as Sereias que procuram atrair para a morte os navegantes, com seus cantos hipnóticos. Estão neste núcleo grande parte da base das lendas/folclore ocidental.

A narrativa é focada na história de Ulisses, herói da Guerra de Tróia que na volta para casa cega o ciclope Polifemo, filho do deus dos mares Posídon – “o sacudidor de terras” –atraindo a fúria do irmão de Zeus e tendo seu regresso para casa retardado em dez anos. Após perder todos os companheiros de jornada, Ulisses se vê preso pela ninfa Calipso, que apaixonada pelo herói o retém em seu leito, sonhando em torna-lo imortal como ela. Ulisses passa os dias chorando na praia, olhando para o mar e sonhando pelo dia em que verá novamente sua terra natal. É então que a deusa Atenas se apieda do herói e passa a interceder por ele, ajudando-o a escapar da ninfa e incitando seu filho Telêmaco a ir atrás de notícias do pai. Enquanto isso em Ítaca, os nobres solteiros da região sonham em casar com Penélope a belíssima esposa de Ulisses – que consideram morto. Penélope, ícone de fidelidade, diz que só escolherá um novo marido quando tiver terminado de tecer a mortalha para Laertes, pai de Ulisses, mas toda a noite ela desmancha o trabalho, começando do zero no dia seguinte. Enquanto esperam, os pretendentes ficam na casa do guerreiro, matando e devorando seus porcos, bois e cabras, dormindo com suas escravas e organizando banquetes infinitos que consomem as riquezas da família.

Explicar a importância da epopéia de Ulisses para a literatura mundial é dizer porque Marx foi importante para o comunismo, ou imaginar que Chuck Berry, Elvis e os Beatles formasse uma só banda seminal para o rock ‘n’ roll. Para ficar em alguns exemplos, James Joyce estruturou seu clássico “Ulysses” em cima da Odisséia e Camões e Virgílio escreveram suas principais obras seguindo as tradições homéricas. Grande parte dos mitos, lendas, e pensamentos ocidentais têm sua base na “Ilíada” e na “Odisséia”. Vejamos, um homem injustiçado volta para se vingar de quem lhe roubou (ou tentou) os bens e o amor. Uma idéia genial do francês Alexandre Dumas em “O Conde de Monte Cristo”? Bem, o arquétipo da vingança clássica já estava escrito na terceira parte da “Odisséia”. Na mesma parte observa-se o mito da entidade fantástica que se disfarça de mendigo e testa a bondade das pessoas. Não é assim em “A Bela e a Fera” ou nas pregações bíblicas? É assim também que Ulisses volta para a casa e reconhece a fidelidade de seu servo Eumeu, o porqueiro, e a traição da escrava Melanto, que dormia com um dos pretendentes. Quando desce ao reino dos mortos, Ulisses se depara com diversas figuras do imaginário grego, entre elas o heróis de tróia Ájax e a mãe de Édipo, Epicasta, que depois serviria de base para a clássica teoria de Freud, o pai da psicanálise. Na Rapsódia VIII são descritos os esportes gregos como o pugilato, o salto, a corrida, o arco e flecha e o arremesso do disco, base das Olimpíadas. Segundo o narrador “(…) não há maior glória na vida para um homem do que alcançar alguma vitória com os pés e com as mãos”.

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A narrativa homérica é marcada pela repetição de algumas formas e trechos. As palavras que tem resposta são “aladas”, os homens valorosos são “semelhantes a um deus”. O nome de Zeus vem sempre sucedido de “Filho de Cronos” e a manhã é anunciada pela chegada da “madrugadora Aurora dos róseos dedos”. Em diversos momentos Homero trata da arte dos aedos – responsáveis por recitar em versos os feitos dos heróis aqueus, antepassados dos gregos – e de sua capacidade de prender a atenção dos ouvintes em uma história empolgante, fazendo uma referência a sua própria arte de recitar a “Odisséia”, poema de origem oral. Vale lembrar, também, que a estrutura final da obra não é linear. Séculos antes de “Pulp Fiction” virar referência na narrativa do cinema, o poema de Homero é repleto de flashbacks, histórias paralelas e mudanças de protagonista – apesar de Ulisses ser o herói e ponto de união de toda obra.

A ligação com a “Ilíada” também é recorrente, aparecendo na saga alguns dos heróis da epopéia anterior como Nestor, Menelau e as almas de Agamémmon e Aquiles. Penélope faz oposição a Helena, no papel da esposa fiel, resistente a todas as provações

Enfim, leia a “Odisséia”. Tanto se você tem um interesse acadêmico na literatura, quanto se você gosta de História, ou mesmo se você é apenas fã de uma boa história de aventura – aficionados por sagas como “Senhor dos Anéis” e “Star Wars” terão um prazer homérico em mergulhar na saga de Ulisses. Só pelo fato de você estar lendo este texto em português, você já é um dos milhões de influenciados pela cultura que deu origem aos versos do genial poeta que talvez nunca tenha.

Personagens:
Odisseu/Ulisses: herói da guerra de Tróia.
Penélope: esposa de Ulisses
Telêmaco: filho de Ulisses e de Penélope
Laertes: pai de Ulisses, vive no campo.
Eumeu: porqueiro, servo fiel de Ulisses,
Euricleia: ama de confiança
Antino: líder dos pretendentes o mais malvado de todos
Eurimaco: um dos pretendentes
Alcino: rei dos feácios, hábeis navegantes
Areta: esposa de Alcíno
Nausíca: filha de Alcino, se apaixona por Ulisses
Laodamante: irmão de Nausíca, desafiador de Ulisses nos jogos.
Baio: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Euríloco: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Perimedes: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Elpenor: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Atena: deusa que intercede a favor de Ulisses
Poseidon ou Posídon: irmão de Zeus, intercede contra Ulisses
Éolo: rei e deus dos ventos
Hades: deus do mundo subterrâneo
Hermes: mensageiro dos deuses
Polifemo: ciclope ferido por Ulisses devorou parte de seus companheiros

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“Dias de Luta”, do jornalista Ricardo Alexandre, conta a história do rock brasileiro dos anos 80

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Fácil e redondo de digerir, mas recheado de informação de qualidade. Tal qual uma canção pop composta pelos ícones dos anos 80 ( como Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana), o livro “Dias de Luta”, do jornalista Ricardo Alexandre, conta a história do rock nacional de forma divertida e leve, prendendo a atenção do leitor com os principais fatos das trajetórias das bandas aliados à curiosidades pouco conhecidas e engraçadíssimas.

A história começa com a banda de rock progressivo “Vímana” formada, entre outros, pelos futuros astros Lulu Santos, Lobão e Richie. A transição do hipismo setentista para a new wave dos anos 80 vai rolando aos poucos até estourar nacionalmente com a Blitz (“Você não soube me amar”) e a Gang 90 (“Perdidos na Selva”). Através das páginas de “Dias de Luta”, o leitor é levado a conhecer as danceterias dos anos 80, as apresentações de playback no Chacrinha e a beatlemania em torno do RPM regada por belas mulheres e muita cocaína.

“Dias de Luta” também tem seu Lado B dedicado às bandas menos conhecidas da cena (os punks, a vanguarda paulistana e a “no wave”) e aos momentos trágicos da década como a morte de Júlio Barroso (da Gang 90), a prisão de Tony Belotto e Arnald Antunes por porte de heroína (e as de Lobão, anos depois, por envolvimento com drogas) e a cobertura cruel da mídia sobre a agonia de Cazuza, vítima da Aids.

No final, Ricardo Alexandre seleciona as 50 melhores músicas da década, que servem de trilha sonora perfeita para essa leitura ensolarada e barulhenta.

Ouça “Perdidos na Selva” da Gang 90

Resenhas de clássicos: “O uivo” de Allen Ginsberg

Este texto foi originalmente publicado por mim mesmo no site Punk Brega.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”.

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Willian Borroughs é adorado no rock n’ roll, tomou picos com os punks e gravou uma música com o U2, mas a literatura beatnik se abriu pra mim com “O Uivo e outros poemas”, obra que conquistou milhões de leitores e tornou seu autor mundialmente famoso. Ginsberg pode ter conhecido a aprovação e a popularidade de um autor consagrado, mas nunca deixou de lado seu estilo “pervertido”, seus versos longos, sua acidez que o enquadram na poesia marginal. Homossexual, usuário de drogas, filho de uma comunista com que teve uma relação delicada, o autor escreveu sua obra num período pré-libertação hippie, segunda metade da década de cinqüenta, quando ainda se sentiam os ecos do Macarthismo e toda paranóia da Guerra Fria. Perseguido e processado pela direita puritana americana e sem o apoio dos ortodoxos da esquerda, Ginsberg escrevia tudo em ritmo de fluxo psicológico, versos grandes que eram na verdade um apanhado de versos menores,como se cada uma de suas poesias fosse um conjunto de pequenos poemas representados por cada parágrafo. De um lado há a escrita coloquial, com uso de linguagem crua, referências a órgãos sexuais, sodomia, drogas e muito jazz, do outro as diversas citações de autores e trechos da liturgia hebraica que demonstram a erudição do poeta,ou como Cláudio Willer escreve em sua apresentação, que os beats se tornaram escritores por serem antes de tudo leitores.

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“O Uivo” é um grito de derrota, de revolta, um relato autobiográfico de quem passou por internações em hospitais, de quem viu o horror com os olhos. Autobiográficos são todos os poemas do autor como “Kaddish para Naomi Ginsberg”, escrito para sua própria mãe, um longo poema marcado pela dor, onde ele relata sua conturbada relação edipiana, desde os tempos da militância no Partido Comunista, depois enlouquecida e paranóica, entrando e saindo de instituições psiquiátricas(destino repetido pelo filho), até sua morte. Tudo escrito sem pudor, com a caneta espirrando sangue, a ironia impregnando o papel, pintando o irmão, Eugene, como um advogado fracassado, a figura paterna distante, a mãe hora motivo de repúdio, ora de desejo.
Ginsberg foi um autor que aprendeu a escrever, não só com a literatura, mas também com a vida. Escreveu “O Uivo” depois de sair de Nova York, ter conhecido o mundo trabalhando em um navio e ter chegado à Califórnia onde conheceu Ferlinghetti e Gary Snider, entre outros. Foi internado em instituições psiquiátricas, andou com traficantes e junkies pelas ruas dos Estados Unidos. Seus versos têm o lirismo das calçadas sujas, dos becos, as rimas alteradas pelas drogas, os (anti) heróis são seus amigos beats, seu companheiro no hospício Carl Solomon e Neal Cassady, o “NC”, amante de Ginsberg e Kerouac (com quem viveu um triângulo amoroso, envolvendo a mulher do escritor) e morto de overdose.

A poesia anárquica de Ginsberg é revolucionária, sem ser partidária, retrata a morte sem lamentações, como uma superação. O poeta passa por toda realidade como um sobrevivente. A vida é curta e ele a viveu da forma mais intensa, o que importa é o instante, já que como Ginsberg diz “o universo morre conosco”.

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Resenhas de livros clássicos: “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde

Esse texto foi originalmente postado por mim mesmo no site Punk Brega.

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Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo”.

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. “Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer”. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.)

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Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: “E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos”

“O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

“Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia.” Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

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Resenhas de livros clássicos: Conheça “Viagem ao fim da noite” de Louis-Ferdinand Céline

Esse texto foi originalmente postado por mim mesmo no site Punk Brega.

Pessimista. Futuro colaboracionista do nazismo. Ácido. Dono de uma escrita crua e erudita ao mesmo tempo. Essa, carregada de neologismo, gírias, palavrões e exclamações em excesso jogadas ali, no meio das palavras. Assim é Céline e assim se desenrola “Viagem ao fim da noite”, seu primeiro e cáustico romance lançado em 1932. Influência seminal de Bukowski, dos beats e, principalmente, de Henry Miller – que rescreveu “Trópico de Câncer” após ler a “Viagem”, Céline inaugura uma nova fase na literatura mundial, dando voz às massas pobres – sem idealizá-las – e escrevendo de uma forma extremamente autobiográfica.

“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.”

“Os pobres são privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as misérias do mundo a sua cara, como um pano de chão.”

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Seu alter-ego, Ferndinand Bardamu, também luta na Primeira Guerra Mundial, vai trabalhar em plantações na África colonial, mora nos EUA e depois – médico formado – clinica nos subúrbios da França. Numa versão mais trágica da vida do autor, Bardamu é medíocre, perde pacientes para as moléstias, vive sem dinheiro, não conhece o amor – só guardando sentimentos carinhosos para a americana Molly e algumas crianças que aparecem no livro.

“Nunca estamos muito pesarosos que um adulto se vá, é sempre um pulha a menos na face da terra, é o que pensamos, ao passo que uma criança é, afinal, mais incerto. Há o futuro.”

Seu companheiro de viagem ao fim da noite é Robinson, trapaceiro que se envolverá até no assassinato de uma senhora, crime muito mais perverso e menos sofrido que o de Raslkolnikov, em “Crime e Castigo”. Robinson e Bardamu fazem dos protagonistas de “On The Road” heróis cheios de glamour. Dão caráter a Macunaíma, o herói que não tinha nenhum. O absurdo da guerra que Hemingway retrata em “Adeus às armas” nunca foi tão nonsense como no começo de “Viagem…” – quando o quase anarquista Bardamu se alista sem nenhum motivo em especial. O retrato da exploração colonial de “Coração das Trevas” de Conrad, parece lírico diante do cinismo e crueza com que Céline descreve o preconceito, a escravidão e o comércio entre brancos e negros. Cada palavra escrita por Céline é uma arma; uma pílula de revolta, ódio e horror.

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer”.

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A de se destacar que este francês está no seleto rol de escritores que realmente inventaram uma linguagem própria. Sua prosa – mesmo traduzida – soa como um dialeto particular, uma tentativa de reproduzir a oralidade e o fluxo de consciência, sem perder a erudição. Um Guimarães Rosa dos becos. O romance explicita o absurdo do imperialismo, do taylorismo e da guerra, sem propor grandes mudanças, saídas ou esperanças. Talvez seja por isso que, para desilusão da esquerda que aclamou seus dois primeiros romances, Céline tenha se tornado colaborador do nazismo na ditadura de Vichy. Sua crítica, ódio incurável e insatisfação niilista o levariam de encontro às soluções populistas de Hitler.

“É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui.”

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião”.

“Nós dois não chorávamos. Não tínhamos nenhum lugar onde pegar lágrimas”.

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Resenha de “O escolhido foi você”, de Miranda July

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Miranda July estava empacada no roteiro de seu filme O futuro, quando resolveu olhar com atenção para os classificados que vinham junto com o jornalzinho de seu bairro. A cineasta/artista/escritora/performer americana ficou intrigada com os objetos que as pessoas vendiam: uma jaqueta grande de couro por US$ 10, alguns girinos, 50 cartões natalinos, uma coleção de ursinhos carinhosos. Logo, July desistiu do roteiro  e resolveu investigar seus vendedores em busca de inspiração. Descobriu que o dono da jaqueta estava passando por uma mudança de sexo e que os girinos pertenciam a um adolescente desajustado. Mas foi o anunciante dos cartões natalinos – pornográficos, feitos à mão por um senhorzinho octagenário – que marcaria July para sempre: além de ajudá-la a terminar o filme, o velhinho botou a vida da artista em perspectiva. E vai fazer o mesmo com você.
“O escolhido foi você”, de Miranda July, Companhia das Letras.

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